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Entre importações em alta e novas barreiras comerciais: o que pode mudar para o Polo Industrial de Manaus?

Polo Industrial de Manaus (PIM) Divulgação/Suframa As notícias chegaram praticamente ao mesmo tempo. De um lado, o Polo Industrial de Manaus (PIM) registrou ...

Entre importações em alta e novas barreiras comerciais: o que pode mudar para o Polo Industrial de Manaus?
Entre importações em alta e novas barreiras comerciais: o que pode mudar para o Polo Industrial de Manaus? (Foto: Reprodução)

Polo Industrial de Manaus (PIM) Divulgação/Suframa As notícias chegaram praticamente ao mesmo tempo. De um lado, o Polo Industrial de Manaus (PIM) registrou aumento de 9,2% nas importações de insumos em maio, movimento interpretado pelo setor produtivo como um indicativo de expansão da atividade industrial nos próximos meses. De outro, os Estados Unidos anunciaram uma tarifa adicional de 25% sobre grande parte dos produtos brasileiros, recolocando o protecionismo no centro das discussões sobre o comércio internacional. E, mesmo que aparentemente desconectados, os dois fatos não estão. O crescimento das importações é, normalmente, um bom sinal para uma indústria como a de Manaus. Antes de fabricar motocicletas, televisores, aparelhos de ar-condicionado, computadores ou equipamentos eletrônicos, as empresas precisam adquirir componentes, matérias-primas e insumos. Quando essas compras aumentam, a expectativa costuma ser de maior produção, faturamento e movimentação econômica nos meses seguintes. Os indicadores recentes sugerem que esse é justamente o cenário vivido pelo PIM neste momento. Os dados divulgados apontam para um ritmo positivo da atividade industrial, sustentado principalmente pela demanda do mercado interno e pelos investimentos realizados ao longo de 2026. Ao mesmo tempo, a decisão do governo norte-americano recoloca em evidência um tema que vai muito além das exportações: a crescente fragmentação do comércio internacional. Embora ainda seja cedo para medir os impactos diretos sobre o PIM - até porque não há, até o momento, um levantamento oficial indicando quais produtos fabricados no Amazonas serão efetivamente atingidos pela nova tarifa - o episódio convida a uma reflexão mais ampla sobre competitividade industrial. É importante lembrar que o PIM possui uma característica própria. Diferentemente de outros polos industriais brasileiros, sua produção é direcionada majoritariamente ao mercado nacional. Entre janeiro e maio de 2026, o faturamento do PIM alcançou cerca de R$ 99,6 bilhões, enquanto as exportações representaram uma parcela relativamente pequena desse resultado, evidenciando que sua principal vocação continua sendo o abastecimento do mercado brasileiro. Isso reduz, em um primeiro momento, a exposição direta da indústria amazonense às novas barreiras comerciais. Ainda assim, concluir que Manaus está imune aos efeitos do cenário internacional seria um equívoco. O próprio crescimento recente das importações demonstra o quanto a indústria local permanece integrada às cadeias globais de fornecimento. Boa parte dos componentes utilizados na fabricação dos produtos do PIM vem do exterior. Semicondutores, circuitos eletrônicos, resinas, componentes mecânicos, químicos e diversos insumos percorrem uma complexa rede internacional antes de chegar às linhas de produção instaladas em Manaus. Isso significa que mudanças no comércio mundial podem repercutir muito além das exportações, influenciando custos industriais, disponibilidade de componentes, logística internacional, taxa de câmbio e decisões de investimento. Outro aspecto que merece atenção é que guerras comerciais raramente produzem efeitos limitados aos países diretamente envolvidos. Tarifas alteram fluxos de comércio, deslocam fornecedores, estimulam a busca por novos mercados e reorganizam cadeias produtivas inteiras. Empresas multinacionais passam a reavaliar estratégias, enquanto governos intensificam políticas voltadas à segurança industrial e tecnológica. Para o Amazonas, esse contexto também traz oportunidades. A alta das importações representa, ao mesmo tempo, um indicador positivo da atividade econômica e um lembrete da forte integração do PIM às cadeias globais de suprimentos. A pergunta importante, portanto, não é se o polo deve importar, algo incompatível com sua estrutura produtiva, mas em quais segmentos existe espaço para ampliar a agregação de valor, fortalecer fornecedores nacionais e estimular atividades de engenharia, pesquisa e desenvolvimento. Essa discussão converge diretamente com outras transformações em curso. O avanço da inteligência artificial, da eletrificação dos veículos, da robótica industrial e da indústria de semicondutores vem ampliando a importância estratégica dos setores de maior intensidade tecnológica. Nesse cenário, competitividade não significa apenas produzir mais, mas significa, sobretudo, produzir com maior conteúdo tecnológico, capacidade de inovação e maior inserção nas cadeias globais de valor. Também vale observar que a própria decisão dos Estados Unidos preservou produtos considerados estratégicos para sua economia, demonstrando que, em momentos de maior protecionismo, até grandes mercados precisam equilibrar interesses comerciais com a necessidade de manter funcionando suas cadeias produtivas. Uma reflexão importante nesse contexto é reconhecer o aumento das importações como um indicador de confiança e de expectativa de crescimento da produção, sem perder de vista que o novo ambiente internacional exige maior capacidade de adaptação, diversificação de mercados e fortalecimento da competitividade. Ainda não sabemos quais serão os impactos concretos da nova tarifa sobre o Amazonas. E qualquer conclusão definitiva, neste momento, seria precipitada. O que já é possível afirmar, porém, é que um mundo mais protecionista exige uma indústria ainda mais preparada, resiliente e conectada às transformações tecnológicas. O grande desafio será garantir que o PIM continue ocupando um espaço relevante em uma economia global cada vez mais dinâmica, tecnológica e sujeita a mudanças nas regras do comércio internacional. Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

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