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TRF1 barra decisão que fragilizava proteção de terra indígena sob invasão no Pará

Agentes da Funai com invasores da TI Ituna-Itatá, no Pará Reprodução / Funai O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), em Brasília, acolheu um ped...

TRF1 barra decisão que fragilizava proteção de terra indígena sob invasão no Pará
TRF1 barra decisão que fragilizava proteção de terra indígena sob invasão no Pará (Foto: Reprodução)

Agentes da Funai com invasores da TI Ituna-Itatá, no Pará Reprodução / Funai O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), em Brasília, acolheu um pedido de urgência do Ministério Público Federal (MPF) e garantiu a manutenção da proteção integral da Terra Indígena (TI) Ituna/Itatá, no Pará. A área de preservação onde vivem indígenas isolados está sendo alvo de uma investigação da Polícia Federal por invasão e ameaças a servidores federais. A decisão suspende os efeitos de uma sentença anterior que colocava em risco a segurança do território, habitado por indígenas isolados, segundo o MPF. A determinação da Justiça Federal de Altamira que foi derrubada estipulava um prazo de 180 dias para que a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) concluísse os estudos de demarcação na área. Caso o prazo estourasse, a portaria de restrição de uso do território seria suspensa automaticamente. ✅ Receba as notícias do g1 Pará direto no WhatsApp Com a nova decisão do TRF1, a terra indígena permanece totalmente interditada para pessoas não autorizadas até que o recurso seja julgado em definitivo. O território, de 142,4 mil hectares, fica localizado nos municípios de Altamira e Senador José Porfírio, no Médio Xingu. Decisão aponta 'prêmio a invasores' e risco de genocídio Ao recorrer da decisão liminar, o procurador regional da República Felício Pontes Jr. sustentou que condicionar a proteção do território a um prazo administrativo curto significava "premiar invasores armados". Esses grupos vêm pressionando os limites da reserva e intimidando o trabalho de campo das equipes de fiscalização, como agentes da Funai, segundo denúncia de entidades que defendem os direitos dos indígenas. O MPF alertou para o "perigo iminente de genocídio" dos povos isolados do grupo Igarapé Ipiaçava, que não possuem imunidade contra doenças comuns, e para o risco de devastação da floresta amazônica na região. Ao suspender a sentença de Altamira, o TRF1 destacou duas falhas jurídicas na decisão que ameaçava a reserva: Falta de intimação do MPF: A sentença local foi proferida sem que o órgão fosse ouvido previamente, o que viola o Código de Processo Civil em causas que envolvem direitos indígenas e o meio ambiente; Desrespeito ao STF: A ameaça de cancelar a restrição de uso contraria a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) na ADPF 991, que determina que o Estado deve sempre renovar as portarias de proteção de áreas com presença de indígenas isolados com base no princípio da precaução. A ação judicial contou com o apoio e denúncias da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (Opi) e da Defensoria Pública da União (DPU). Lei estadual e invasão por 300 pessoas A decisão judicial ocorre em meio a uma das maiores crises de segurança recentes no Médio Xingu. A TI Ituna/Itatá virou cenário de um conflito após a Lei estadual nº 11.665/2026, de autoria do deputado Torrinho Torres (Republicanos), e homologada pela Assembleia Legislativa do Pará (Alepa), presidida pelo deputado Chicão (União). A legislação criou a Área de Proteção Ambiental (APA) Bacajaí. No entanto, um mapeamento técnico do Opi confirmou que a nova unidade de conservação estadual possui 100% de sobreposição com a terra indígena. Entidades alegam que a lei estadual é inconstitucional e funciona como um "dispositivo para legalizar a grilagem de terras", já que permite a regularização fundiária de ocupações ilegais dentro da área preservada. A publicação da lei desencadeou uma invasão em massa. Nos dias 15 e 16 de agosto, fiscais da Funai descobriram um acampamento com cerca de 100 pessoas, 35 motos e quatro carros dentro do território indígena. Os ocupantes informaram que outros 200 invasores já haviam avançado floresta adentro com motosserras, foices e facões para demarcar lotes e abrir estradas clandestinas. Acampamento de invasores dentro da TI Ituna/Itatá, no Pará. Reprodução / Funai Apelo internacional e pedido de Força Nacional Diante da gravidade da situação e da desproteção dos servidores da Funai, que relataram ter sofrido ameaças, uma coalizão de seis organizações acionou a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) em busca de medidas cautelares urgentes. A Defensoria Pública da União (DPU) cobrou do Ministério da Justiça e Segurança Pública o envio imediato de tropas da Força Nacional de Segurança Pública para restabelecer a segurança e apoiar as ações da Funai. O convênio anterior com a Força Nacional havia expirado, deixando o posto de fiscalização local sem retaguarda policial. A Polícia Federal em Altamira confirmou que instaurou um procedimento policial para investigar os crimes federais em andamento no território, incluindo a invasão de terra pública da União, destruição de patrimônio e crimes ambientais. A TI Ituna/Itatá liderou o desmatamento no Brasil em 2019, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Evolução do desmatamento na terra Indígena Ituna-Itatá Arte/G1 Mapa localiza a terra indígena Ituna-Itatá, os municípios limítrofes e a usina de Belo Monte; restrição de uso da terra foi contrapartida à construção da usina. Rodrigo Sanches/G1 O que as entidades pedem à CIDH Na manifestação enviada ao órgão internacional, as organizações sociais solicitam que a comissão adote as seguintes medidas: Cobrança ao governo brasileiro por informações urgentes sobre as ações para conter as invasões e garantir a segurança dos servidores da Funai; Emissão de um comunicado público manifestando preocupação com a Lei estadual nº 11.665/2026 e os riscos de genocídio dos povos isolados; Reforço do monitoramento internacional sobre o território da TI Ituna/Itatá; Acompanhamento do envio da Força Nacional e da PF à região. Motos e equipamentos usados por invasores na TI Ituna/Itatá, no Pará. Reprodução / Funai O que diz o governo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP): Em nota, o MJSP disse que "a Força Nacional de Segurança Pública atua no Extremo Sul da Bahia em apoio à Funai, sob coordenação da Polícia Federal, conforme planejamento definido pelos órgãos responsáveis pela operação, nos termos da Portaria MJSP nº 1.268/2026, de 24 de julho de 2026". Disse, ainda, que "a atuação é voltada ao apoio às ações de segurança e à preservação da ordem pública, com atividades de patrulhamento e presença preventiva nas áreas abrangidas pela operação". E que, "por questões de segurança das equipes, informações sobre efetivo, deslocamentos, pontos de atuação, protocolos específicos e demais dados que possam comprometer a segurança da operação e as comunidades atendidas não são divulgadas". "É importante ressaltar que a atuação da Força Nacional ocorre de forma integrada com os órgãos federais envolvidos, obedecendo o planejamento operacional estabelecido pelo órgão apoiado", concluiu a nota. Ministério dos Povos Indígenas (MPI): O MPI afirmou, em nota, que "expressa preocupação quanto à instituição da Área de Proteção Ambiental (APA) Bacajaí, pelo Estado do Pará, em sobreposição integral à área da Terra Indígena Ituna-Itatá, protegida por Portaria de Restrição de Uso da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para a proteção de povos indígenas isolados". A pasta explicou que "com área de 142.402 hectares localizada nos municípios de Altamira e Senador José Porfírio (PA), a Terra Indígena Ituna-Itatá abriga o Registro de Povo Indígena Isolado nº 110 (Igarapé Ipiaçava) e encontra-se protegida por sucessivas Portarias de Restrição de Uso desde 2011, sendo atualmente disciplinada pela Portaria Funai nº 1.335/2025". A nota também confirmou que a "Lei do Estado do Pará nº 11.665/2026, publicada em 12 de agosto de 2026, instituiu a APA Bacajaí com a mesma extensão territorial e nos mesmos municípios abrangidos pela área protegida, de modo que a unidade de conservação estadual coincide integralmente com a área submetida à Portaria de Restrição de Uso da Funai". Segundo o MPI, "a Portaria de Restrição de Uso constitui instrumento administrativo de proteção territorial destinado a assegurar a integridade de áreas com registros da presença de povos indígenas isolados, mediante a restrição do ingresso, da permanência e do trânsito de pessoas não autorizadas". Reforçou que a portaria "trata-se de medida preventiva que integra a política brasileira de proteção aos povos indígenas isolados e que, no caso de Ituna-Itatá, foi adotada no contexto das medidas de proteção relacionadas ao licenciamento da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, diante das evidências da presença desses povos na região". "Atualmente, a manutenção desse regime especial de proteção atende também às determinações do Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF nº 991, que asseguraram a manutenção das Portarias de Restrição de Uso até a conclusão dos procedimentos de regularização de Terras Indígenas com presença de povos indígenas isolados deforma a garantir a proteção territorial e prevenir contatos forçados e invasões", detalhou. O MPI afirmou que a "criação da APA Bacajaí pelo Estado do Pará não afasta nem substitui o regime federal de proteção especial incidente sobre a Terra Indígena Ituna-Itatá (...)" e que a "incidência de mecanismos sobre área protegida por Portaria de Restrição de Uso revela-se incompatível com a finalidade desse instrumento, que consiste em assegurar a proteção territorial de povos indígenas isolados mediante a restrição do ingresso de terceiros e a prevenção de novas ocupações". "Essa incompatibilidade assume especial gravidade no caso de Ituna-Itatá, que permanece objeto de operações permanentes de proteção territorial e controle de acesso desenvolvidas pelo Estado brasileiro justamente para impedir novas ocupações e assegurar a efetividade das decisões judiciais e administrativas de proteção aos povos indígenas isolados", pontuou. O ministério relembrou que a TI está "submetida a um conjunto permanente de ações de proteção territorial desenvolvidas pelo Estado brasileiro" e que, "em cumprimento à decisão (judicial), foi deflagrada, em agosto de 2023, a Operação Eraha Tapiro, voltada à desintrusão de ocupações irregulares, à desmobilização das estruturas utilizadas para ocupação ilícita e à interrupção das atividades ilegais desenvolvidas no interior da área". Por fim, a pasta afirmou que, além de acompanhar a situação com os órgãos competentes, "reafirma que a proteção territorial preventiva constitui o principal instrumento para assegurar os direitos dos povos indígenas isolados". Leia mais notícias do estado no g1 Pará

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