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Órfão de feminicídio, ele viu o pai matar a mãe aos 16 anos e hoje constrói uma vida para além do trauma

Órfão de feminicídio Khanchit Khirisutchalual "Eu sou muito além do acidente." Acidente é como Francisco* se refere ao dia em que o pai matou a mãe no est...

Órfão de feminicídio, ele viu o pai matar a mãe aos 16 anos e hoje constrói uma vida para além do trauma
Órfão de feminicídio, ele viu o pai matar a mãe aos 16 anos e hoje constrói uma vida para além do trauma (Foto: Reprodução)

Órfão de feminicídio Khanchit Khirisutchalual "Eu sou muito além do acidente." Acidente é como Francisco* se refere ao dia em que o pai matou a mãe no estacionamento do prédio da família, em São Paulo, em agosto de 2023. Hoje, aos 19 anos, ele constrói uma nova vida no interior — sem deixar que o trauma o reduza a um órfão de feminicídio. Francisco faz parte de um grupo de vítimas que muitas vezes permanece invisível depois que uma mulher é assassinada: os filhos. Eles não perdem apenas a mãe. Em muitos casos, também testemunham o crime ou episódios anteriores de violência doméstica e precisam aprender a seguir em frente. 🔎 Ao menos 1.653 crianças ficaram órfãs de feminicídio no Brasil em 2025, segundo o Monitor de Feminicídios no Brasil, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). 🔎 No mesmo ano, 1.571 mulheres foram vítimas de feminicídio no país, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho. O estado de São Paulo concentrou o maior número de registros, com 270 mortes. Os números ajudam a dimensionar a violência que a Lei Maria da Penha, que completa 20 anos nesta sexta-feira (7), busca enfrentar. Duas décadas depois da criação da principal legislação brasileira de combate ao problema, os efeitos dessa violência ainda ultrapassam a vítima diretamente atingida e alcançam também seus filhos. Lei Maria da Penha completa 20 anos, enquanto Brasil vive aumento nos casos de feminicídios Francisco era filho único e tinha 16 anos quando viu o pai matar a mãe. Além de perdê-la, ele presenciou parte do crime e a tentativa de suicídio do pai — que hoje está preso em uma penitenciária no interior de São Paulo. Na manhã do acidente, o jovem acordou assustado após ouvir os gritos da mãe vindos da garagem. No começo, não entendeu o que estava acontecendo. Então ouviu o próprio nome, o nome do pai e os pedidos de misericórdia. Quando olhou pela janela, viu o carro com a porta aberta. Desceu e encontrou os dois. Antes do acidente, o jovem definia a família e a vida que levavam como "perfeitas". A mãe tinha o hábito de chamá-lo carinhosamente de "hijo" (filho, em espanhol), já que ela morou cerca de dois anos na Espanha. "A gente não era rico, não fazia viagens mirabolantes, mas eu tinha tudo aquilo que eu queria. Como filho único, eu tinha esse apego a mais com meus pais. O meu pai fazia o papel dele, minha mãe fazia o papel dela. Era aquela família bem tradicional que a gente vê." Segundo Francisco, tudo mudou quando a mãe descobriu uma traição e pediu o fim do casamento. O pai não aceitava o pedido da esposa e, durante um mês, ficou dormindo no sofá da sala. Até que, em um determinado momento, a mulher deu um ultimato, e o marido a matou. Como que eu poderia perdoá-lo? Porque ele tirou a vida da minha mãe e tirou a minha vida. Tirou meus pais, tirou a minha rotina, tudo o que eu vivia. Toda a história que eu tinha construída em São Paulo acabou ali. Eu fui uma vítima indireta. O jovem não gosta nem quer ser definido pelo feminicídio, mas afirma que existe o Francisco de antes e o Francisco de depois do "acidente". A família já o considerava maduro para a idade, mas ele precisou crescer ainda mais rápido. Foi, como ele próprio define, uma maturidade “por obrigação”. Em São Paulo, além dos pais, ele só tinha a avó materna. Depois do crime, precisou se mudar para o interior e passou a viver uma sucessão de mudanças: casa, cidade, escola, amigos e rotina. No meio disso, vieram a ansiedade e a angústia. Para ele, o mais difícil não foi apenas lidar com a perda da mãe e com o pai preso, mas absorver todas essas mudanças de uma só vez. Na época, estava terminando o segundo ano do ensino médio e precisou fazer o terceiro ano no interior. "Não sobrou nem um resquício do que era a minha vida. Foi realmente uma nova vida. Eu fiquei mais triste, fui perdendo a força, a vontade de fazer as coisas. Eu não me vi em um cenário de depressão, mas aquela tristeza que deixa a gente fraco. Passei pela ansiedade de sair logo da casa da minha avó e poder morar sozinho." Mesmo rodeado de familiares, Francisco se via solitário e optou por morar sozinho. Aos 18 anos, voltou para o apartamento em que vivia com os pais na capital, terminou o Ensino Médio na escola em que estudava antes do crime e reencontrou os amigos antigos. Foi, para ele, uma espécie de despedida: pela primeira vez desde o feminicídio, pôde voltar à vida que tinha antes. Depois, acabou encontrando um novo caminho no interior paulista. Conseguiu um trabalho em uma concessionária de automóveis por meio de um projeto social para pessoas em situação de vulnerabilidade, após fazer um curso de oito meses. E para o futuro, deseja entrar na faculdade e cursar relações internacionais. Francisco também mudou a maneira de pensar sobre o futuro. Durante muito tempo, dizia que havia se tornado uma pessoa sem sonhos. Como após o acidente não sabia nem sequer onde dormiria no dia seguinte (se na casa de um tio ou de um primo, ou da avó), aprendeu a viver um dia de cada vez. Hoje, prefere falar em objetivos, metas e planos. Em vez de imaginar um sonho distante, pensa nas coisas que consegue construir pouco a pouco: mudar para o interior, morar sozinho, conseguir um trabalho, começar a faculdade. São objetivos concretos, que ele pode alcançar. "Prefiro trabalhar com a palavra objetivos, né? Metas, planos. Não sonho necessariamente. Eu não tenho nada que eu lutaria a vida toda para conseguir. Então, acho que isso é o que define para mim o que é um sonho." Aos poucos, também precisou aprender o que significa viver sem os pais. Criado como filho único, acostumado a ter os dois por perto, descobriu que estar cercado pela família não era a mesma coisa. Sem os pais, havia uma solidão que não desaparecia mesmo quando a casa estava cheia. E é da mãe que ele sente a falta mais cotidiana. Às vezes, ainda se pega sozinho falando em voz alta que sente saudade. Francisco estava crescendo quando ela morreu e começava a descobrir uma nova relação entre os dois, para além de mãe e filho: estavam se tornando amigos. É dessa fase interrompida que ele sente falta. De imaginar como seria hoje, com ele mais velho, dirigindo, levando a mãe para passear, brincando com ela e conhecendo lugares novos — coisas que ela gostava de fazer. LEIA TAMBÉM: Feminicídios fora de casa batem recorde em SP e já representam mais de 40% dos casos Metade dos feminicídios no Brasil ocorre em cidades de até 100 mil habitantes, diz pesquisa Feminicídios batem recorde no Brasil, na contramão do menor número de assassinatos em 13 anos, indica Anuário da Segurança Violência contra mulher: como pedir ajuda Os caminhos para seguir em frente Depois de precisar reconstruir a própria rotina, Francisco encontrou alguns pontos de apoio para seguir em frente. A fé foi um deles. Criado em uma família cristã, ele se agarrou à religião nos momentos mais difíceis e encontrou nela uma maneira de dar algum sentido ao que havia acontecido. "Minha família é religiosa, e acho que esse foi o principal pilar em todo momento que me ajudou. Porque era o que me dava forças, era acreditar que tudo era um propósito, tudo aconteceu por um motivo muito maior, e eu pude me confortar nisso." A atividade física também se tornou um desses pilares. Gostar de academia e de esportes o manteve ativo e, principalmente, o levou a novos lugares e pessoas. Foram encontros que, mesmo alguns tendo durado pouco, ajudaram Francisco a atravessar aquele período. Mas houve outro apoio importante, desta vez oferecido pelo Estado: o Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi), serviço público gratuito do governo paulista que oferece atendimento psicológico e social e orientação jurídica a vítimas de violência e seus familiares. Ele faz as sessões de atendimento psicológico on-line, uma vez por semana. No começo, as conversas giravam principalmente em torno do feminicídio e de tudo o que havia acontecido. Aos poucos, porém, o atendimento passou a acompanhar outras transformações: o novo lar, a adaptação a uma nova rotina, os pensamentos e sentimentos que surgiam diante de cada nova etapa. Hoje, a terapia é parte dessa nova rotina. Não para apagar o que aconteceu, mas para ajudá-lo a compreender as marcas que ficaram enquanto tenta construir, aos poucos, uma vida que seja sua. Apoio para quem fica Depois de um crime contra a vida, nem sempre a vítima é apenas quem foi diretamente atingida. Há também quem fica — familiares, amigos e até pessoas que testemunharam a violência — e precisa encontrar uma maneira de seguir depois dela. É para esse público que existe o Cravi, que oferece atendimento psicológico e social e orientação jurídica a vítimas diretas e indiretas de crimes contra a vida. Para mais informações sobre o serviço, acesse o site. Segundo a psicóloga Luane Natalle, coordenadora do Cravi, no caso de crianças e adolescentes que perdem a mãe para o feminicídio, as consequências podem ser especialmente profundas. O impacto é socioemocional, econômico, de ruptura de vínculos sociais comunitários. Ele afeta de forma global a vida da criança e do adolescente. Na maior parte das vezes, essas crianças perdem seus vínculos sociais comunitários porque, com a morte da mãe e o encarceramento do pai, ela perde as principais figuras maternas e paternas. A ruptura pode significar deixar a casa, a escola, os amigos e a própria comunidade em que a criança cresceu. É uma sequência de mudanças que se soma à perda e pode transformar, de uma só vez, diferentes partes da vida. O atendimento não tem duração pré-determinada. Segundo Luane, algumas pessoas permanecem no acompanhamento por um, dois ou até três anos. O encerramento acontece quando as questões trazidas deixam de estar relacionadas principalmente à violência e à perda e passam a se concentrar nos conflitos cotidianos — momento em que o acompanhamento pode continuar em outros serviços. O Cravi completa 28 anos em 2026 e atualmente tem nove unidades em funcionamento no estado. O atendimento, que antes da pandemia era exclusivamente presencial, hoje também pode ser feito on-line. O acesso é direto: não é necessário encaminhamento de outro serviço. A pessoa pode procurar uma das unidades por telefone ou presencialmente e agendar o atendimento. Também não é preciso que o crime tenha sido formalmente registrado para que a pessoa seja acolhida. “O outro diferencial importante do programa é que, para que a pessoa tenha o atendimento, a violência não precisa estar institucionalizada. Então, para atendimento não é preciso que exista um boletim de ocorrência, ou que a pessoa esteja citada já em um inquérito, processo formalizado", explica Luane. A única exigência, segundo a coordenadora, é a apresentação de um documento com foto. A proposta é que o serviço funcione como uma política pública de portas abertas para quem foi impactado por um crime contra a vida. Ao longo de três décadas, o perfil de quem procura o Cravi também mudou. Hoje, embora o serviço seja voltado a todos os públicos, as mulheres são maioria entre os atendidos. Luane conta que aumentou, especialmente no período da pandemia e depois dela, a procura por mulheres que perderam filhas ou irmãs para o feminicídio e por sobreviventes de tentativas de feminicídio. *O nome da vítima foi alterado para preservação da identidade

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