Sicário: conheça a curiosa história por trás do apelido
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Nos últimos dias, o nome de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão passou a circular intensamente no noticiário após sua prisão em uma operação policial que também teve como alvo o empresário Daniel Vorcaro. Em meio às revelações do caso, um detalhe curioso chamou a atenção: o apelido “sicário”, associado a Mourão em diferentes relatos e investigações. A expressão, carregada de significado histórico, remete a um termo antigo que ajuda a entender o peso simbólico atribuído ao codinome.
História
Durante as décadas que antecederam a destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70 d.C., a Judeia foi palco de intensas tensões políticas, religiosas e militares. Entre os diversos grupos que resistiam ao domínio de Roma, um em especial se destacou pela radicalidade de suas ações: os sicários.
Descritos principalmente pelo historiador judeu Flávio Josefo, autor de A Guerra dos Judeus, os sicários eram um grupo extremista associado ao movimento dos zelotes, conhecidos pelo uso de assassinatos seletivos e ataques furtivos contra autoridades romanas e contra judeus considerados colaboradores do império.
Sua atuação contribuiu para intensificar o clima de violência que culminou na Primeira Guerra Romano-Judaica, um conflito devastador que terminou com a destruição de Jerusalém e do Segundo Templo.
Origem do nome
O termo sicário deriva da palavra latina sica, que designava um pequeno punhal curvo ou adaga curta. Essa arma podia ser facilmente escondida sob as vestes ou até na palma da mão. A partir desse instrumento surgiu o termo sicarius (plural sicarii), literalmente “homem da adaga”. Entre os romanos, a palavra passou a ser usada para se referir a assassinos que utilizavam esse tipo de arma para ataques rápidos e discretos.
No caso do grupo judaico, o nome descrevia precisamente seu método de ação. Os sicários escondiam as adagas sob os mantos e se misturavam à multidão durante festas religiosas ou reuniões públicas. No momento oportuno, atacavam suas vítimas e, logo depois, desapareciam entre as pessoas que corriam assustadas.
Com o passar do tempo, o termo “sicário” acabou ganhando um significado mais amplo e passou a designar assassinos contratados ou pessoas que matam em troca de recompensa. Porém, historicamente, a palavra surgiu para descrever esse grupo específico do século I.
Um grupo ainda mais radical que os zelotes
Os sicários são geralmente considerados um subgrupo dos zelotes, um movimento judaico que defendia a resistência armada contra o domínio romano. Enquanto os zelotes atuavam muitas vezes como uma espécie de milícia ou exército improvisado, realizando ataques de guerrilha contra as forças romanas, os sicários adotavam uma estratégia diferente: assassinatos seletivos e operações furtivas.
Seu objetivo era eliminar figuras que simbolizavam o poder romano na região ou que, na visão deles, colaboravam com a ocupação estrangeira. Entre suas vítimas estavam autoridades romanas, membros da elite judaica e até líderes religiosos considerados aliados do império.
Um dos casos mais conhecidos foi o assassinato de Jonatã, o sumo sacerdote de Jerusalém. Segundo os relatos históricos, ele foi morto por sicários durante o governo do procurador romano Antônio Félix.
Ataques em meio à multidão
O método de ação dos sicários tornou-se uma de suas características mais marcantes. Eles costumavam agir durante grandes festas religiosas em Jerusalém, quando milhares de pessoas se reuniam no templo ou nas ruas da cidade.
Disfarçados como peregrinos ou participantes das celebrações, carregavam pequenas adagas escondidas sob a roupa. Quando identificavam o alvo, aproximavam-se discretamente e realizavam o ataque. Logo após o assassinato, misturavam-se novamente à multidão e simulavam choque ou indignação, dificultando sua identificação.
Esse tipo de estratégia produzia um efeito psicológico poderoso: espalhava medo e insegurança tanto entre as autoridades romanas quanto entre a própria população judaica. Por isso, muitos historiadores consideram os sicários um dos primeiros exemplos de organização que utilizou o assassinato político sistemático como ferramenta de luta.
O papel na revolta contra Roma
A atividade dos sicários ocorreu em um período de crescente conflito entre judeus e romanos. Diversos fatores contribuíram para esse cenário, incluindo tensões religiosas, conflitos entre comunidades locais e abusos cometidos por governadores romanos.
Um episódio simbólico foi a decisão de um governador romano de confiscar dinheiro do tesouro do Templo de Jerusalém após disputas entre judeus e gregos na cidade de Cesareia. A medida foi vista como uma grave provocação.
Quando a revolta aberta começou em 66 d.C., diferentes grupos rebeldes se uniram para expulsar as forças romanas de Jerusalém. Entre os líderes associados aos sicários estavam Menahem ben Judá e, posteriormente, Eleazar ben Ya’ir. Durante esse período, os rebeldes conseguiram tomar importantes posições militares, incluindo a fortaleza de Massada e a Fortaleza Antônia, próxima ao Templo.
O desfecho em Massada
Após a queda de Jerusalém em 70 d.C., alguns grupos rebeldes continuaram resistindo ao domínio romano. Um dos últimos focos de resistência foi a fortaleza de Massada, localizada no deserto da Judeia. Ali, um grupo de sicários liderado por Eleazar ben Ya’ir resistiu por vários anos ao cerco romano.
Em 73 d.C., quando os romanos finalmente conseguiram invadir a fortaleza, encontraram um cenário dramático. Segundo o relato de Josefo e outras teorias, os zelotes/sicários que se encontravam em Massada teriam pactuado uma espécie de suicídio coletivo indireto.
Como o suicídio já era um pecado terrível para os judeus, os sicários teriam tirado na sorte ― como algum jogo de “dados” ― quem mataria quem, de modo que nenhum dos 960 membros da resistência tivesse que se suicidar. O episódio de Massada tornou-se um dos acontecimentos mais simbólicos da história da resistência judaica contra Roma.
Um legado controverso
A imagem histórica dos sicários permanece controversa. Para alguns estudiosos, eles podem ser vistos como combatentes da resistência contra uma ocupação estrangeira. Para outros, suas táticas de assassinato e terror os aproximam de grupos extremistas que utilizam a violência política como estratégia.
Independentemente da interpretação, os sicários representam um dos primeiros exemplos conhecidos de organização clandestina que utilizou assassinatos seletivos, operações furtivas e ações psicológicas para alcançar objetivos políticos.
Mais de dois mil anos depois, seu nome continua associado à ideia de violência política e assassinato — um significado que acabou sendo incorporado ao vocabulário moderno da palavra “sicário”.
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