VIA ALTERNATIVA COMO PROJETO DE PAÍS — ROMPER COM AS ELITES POLÍTICO-PARTIDÁRIAS E RECONSTRUIR O FUTURO
Marcos Eduardo Lelis - Advogado
O Brasil vive um paradoxo político: nunca se falou tanto de “povo”, “nação” e “futuro”, e raramente se enxergou tão pouco o outro como parte do mesmo corpo social. A divisão atual deixou de ser apenas disputa de ideias e virou disputa de identidades. Quando política vira torcida, o adversário vira inimigo; quando vira inimigo, o debate deixa de construir e passa a ferir. E um país ferido não planeja: apenas reage.
Por isso, o que está em jogo não é “moderação” nem qualquer ideia associada a um “centro” tradicional. O ponto é outro: o Brasil precisa de uma via alternativa que não seja refém das frentes atuais e, principalmente, que não seja comandada pelas elites político-partidárias — grupos e lideranças que atravessam décadas revezando cargos, controlando estruturas internas, ajustando discursos ao clima do momento e preservando, no essencial, o mesmo modo de operar.
A crítica aqui não é à experiência em si. O problema é quando a experiência vira permanência, e a permanência vira propriedade do sistema. Quando as elites político-partidárias dominam o jogo por gerações, forma-se um ecossistema de autopreservação: a prioridade deixa de ser a vida real do cidadão e passa a ser a manutenção de influência, alianças e espaços. A política vira um circuito fechado. De fora, o país muda; por dentro, o poder se reacomoda, mas raramente se renova.
Essa influência nociva se revela menos pelo que se declara e mais pelo que se institucionaliza. Consolida-se um modelo mental em que o principal não é resolver problemas, mas sobreviver no tabuleiro: construir máquina, ocupar postos, distribuir lealdades, controlar diretórios, transformar o Estado em terreno de disputa e administrar crises para manter-se indispensável. É um modo de operar que captura partidos, inibe renovação e cria “porteiros” do poder: quem não se submete tem dificuldade de crescer; quem se submete passa a depender do próprio mecanismo.
O resultado é conhecido e caro. Primeiro, o Brasil paga com curto prazismo — projetos estruturantes cedem lugar a medidas de impacto rápido, porque o foco é o próximo embate, a próxima narrativa, a próxima eleição. Segundo, paga com mediocridade institucional — o mérito perde espaço para a conveniência; técnicos viram peça substituível; decisões obedecem ao cálculo político mais do que ao interesse público. Terceiro, paga com deseducação cívica — a sociedade aprende a associar política a espetáculo, troca e impunidade — e isso corrói a confiança, combustível invisível de qualquer progresso.
A polarização, nesse contexto, não é um acidente — muitas vezes ela se torna funcional para as elites político-partidárias. Quando a política vira guerra moral, as bases ficam permanentemente mobilizadas, a cobrança por resultado diminui e qualquer crítica é rotulada como ataque do inimigo. A indignação substitui a avaliação. A torcida substitui o cidadão. E assim certas lideranças se mantêm como “indispensáveis” — não por entregarem soluções, mas por dominarem o conflito.
Só que esse jogo tem um custo humano enorme. Desgasta políticos de todos os lados, que passam a viver em estado contínuo de defesa e ataque, com pouca margem para reconhecer erros ou corrigir rota. Desgasta a sociedade, que leva a disputa para dentro de casa, para o trabalho, para as amizades. O país fica exausto. E um país exausto fica vulnerável: a promessas mágicas, a salvacionismos, a atalhos institucionais e a impulsos autoritários.
É justamente aqui que a via alternativa precisa se afirmar. Não como “terceira posição” de marketing, nem como rearranjo de coalizões com os mesmos personagens, mas como ruptura de método: trocar o eixo emocional — “ganhar do outro lado” — por um eixo de país: entregar resultados.
Resultado é simples de medir na realidade — escola que alfabetiza e forma, saúde que atende, segurança pública com inteligência e legalidade, infraestrutura que reduz o custo Brasil, ambiente econômico que permita produzir e empregar, e políticas sociais que protejam quem precisa sem transformar dependência em destino. Uma via alternativa deve ser julgada por isso — e não por guerras culturais, fidelidade a líderes ou habilidade de dominar o noticiário.
Mas há um requisito decisivo, sem o qual a via alternativa vira apenas um conceito vazio: ela precisa ser representada por alguém que conheça o povo. Alguém que converse com o povo, que saiba ouvir mais do que discursar, que tenha vivência concreta das dificuldades e das potências do país real. Não um “intérprete” distante do Brasil, e sim uma liderança com noção verdadeira das necessidades da população de norte a sul, de leste a oeste — da periferia urbana ao interior, do trabalhador informal ao empreendedor, do campo à cidade, da Amazônia aos grandes centros, das regiões que têm voz às que quase nunca são ouvidas.
Conhecer o povo, aqui, não é fazer visita protocolar nem aparecer em época eleitoral. É ter sensibilidade para entender que o Brasil não é uma tese: é um cotidiano. É compreender que segurança pública não é estatística; é medo na porta de casa. Que saúde não é debate abstrato; é fila e ausência. Que educação não é slogan; é criança que não aprende a ler no tempo certo. Que emprego não é discurso; é o orçamento apertado no fim do mês. Uma liderança dessa natureza fala menos para “militâncias” e mais para a vida concreta — porque seu compromisso não é com o aplauso fácil, mas com a confiança difícil.
Para não cair na armadilha de apenas “trocar os nomes”, essa nova frente precisa se diferenciar em três dimensões.
A primeira é renovação com independência. Renovar não é colocar rosto novo para repetir lógica antiga. Renovação real é abrir espaço para lideranças que não dependam de padrinhos, que não vivam de tutela e que não devam favores ao velho circuito de influência.
A segunda é governança e previsibilidade. Menos espetáculo, mais planejamento. Menos improviso, mais metas. Menos campanha permanente, mais política pública. E, sobretudo, compromisso com transparência e responsabilidade: instituições como limites e não como armas, respeito ao devido processo, e combate à corrupção sem seletividade — porque seletividade destrói a legitimidade do combate.
A terceira é reconstrução do tecido social. Democracia não elimina conflito; ela o civiliza. A via alternativa precisa resgatar a noção de adversário legítimo. O Brasil não pode continuar tratando divergência como crime moral. Unificar o povo não é uniformizar opiniões; é garantir que diferenças existam sem que o país se destrua.
O progresso de um país não é um evento; é uma construção. Ele exige continuidade, confiança e cooperação mínima entre diferentes. Se o Brasil quer voltar a avançar de forma sustentável — econômica, social e institucionalmente — precisará de uma alternativa que substitua a febre da guerra pelo trabalho da reconstrução. Não a repetição das frentes atuais com nova embalagem, nem a dependência das elites político-partidárias que atravessam décadas controlando o jogo, mas uma política capaz de fazer o essencial voltar a ser mais importante do que o barulho.
No fim, a escolha não é entre rótulos ideológicos como identidades inegociáveis. A escolha verdadeira é entre continuar refém de um circuito que se alimenta da divisão — ou abrir espaço para um novo ciclo político, com outras práticas, outros compromissos e outra lógica: a lógica do país acima do poder. Menos guerra, mais Brasil.

Marcos Eduardo Lelis
Advogado
Mestre em Direito – Ciências Jurídico-Políticas pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra - Portugal
Jurídico - Confraria 01
www.lelisadvocacia.com
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