cover
Tocando Agora:

“TRUMPCENTRISMO”: QUANDO A ORDEM INTERNACIONAL VIRA UM PALCO COM UM SÓ PROTAGONISTA

Dr. Marcos Eduardo Lelis

“TRUMPCENTRISMO”: QUANDO A ORDEM INTERNACIONAL VIRA UM PALCO COM UM SÓ PROTAGONISTA
Imagem da Rede Social

“Trumpcentrismo” nomeia um fenômeno que vai além de uma política externa assertiva ou de slogans como America First. Trata-se de uma tentativa de reorganizar a percepção global — e, por extensão, parte dos mecanismos diplomáticos — em torno de um eixo pessoal. Se há crise, a solução deve passar por Trump; se há paz, a autoria é sua; se há instituições, elas só valem quando o confirmam. Não se trata de uma doutrina coerente, mas de uma estética de poder: o líder como marca, árbitro e “certificador” supremo de legitimidade.

O anúncio de um “Conselho de Paz” em Davos sintetiza esse método. Embalado como um novo fórum para gerir paz e reconstrução — com ponto de partida em Gaza e ambição global — o projeto surge cercado de cerimônia, assinaturas solenes e promessa de impacto imediato. A desconfiança diplomática, porém, é previsível: muitos enxergam ali menos uma inovação institucional e mais uma tentativa de rivalizar, contornar ou, na prática, esvaziar o sistema multilateral representado pela ONU. A questão central não é apenas se o mecanismo funcionará, mas o gesto político: criar uma plataforma paralela para uma função que já possui arquitetura jurídica e legitimidade internacional, ainda que imperfeita.

O multilateralismo é lento, frequentemente frustrante, e paga o preço de tentar conciliar interesses incompatíveis. Mas carrega uma vantagem civilizatória: subordina a política internacional a regras, e não ao humor do governante de plantão. No trumpcentrismo, essa lentidão vira argumento para um bypass: fóruns paralelos, de estrutura ambígua, mandato elástico e dependência explícita do prestígio pessoal de quem os lidera.

Não se trata de uma correção do sistema, mas de uma transferência do centro de gravidade. “Atalhos” institucionais raramente resolvem déficits de governança; em geral, apenas deslocam o controle para um centro personalizado, com menos freios, menos transparência e maior margem para arbitrariedade.

Uma das marcas do trumpcentrismo é a diplomacia hiperpersonalista: menos Estado, mais figura; menos procedimento, mais improviso; menos burocracia — com todos os seus mecanismos de contenção — e mais contato direto e performático. A política externa passa a ser tratada como extensão do temperamento do líder, e não como expressão de uma continuidade institucional.

Esse estilo incentiva um mundo no qual países calibram decisões não pelo direito internacional ou pela previsibilidade dos compromissos, mas pelo que “agrada” ou “desagrada” o centro do palco. A ordem deixa de ser um arranjo minimamente estável e transforma-se em um ambiente de teste permanente: quem cede hoje, cede novamente amanhã; quem resiste hoje pode ser punido no próximo ciclo.

No trumpcentrismo, a narrativa frequentemente vale mais do que o resultado. A paz deixa de ser um processo multilateral — com compromissos verificáveis, garantias, monitoramento e custos distribuídos — e passa a ser um produto de vitrine: “eu fiz”, “eu criei”, “eu resolvi”. A lógica é simples e perigosa: se a paz precisa de autoria, ela precisa de um autor; se precisa de um autor, precisa de um protagonista.

Quando a política internacional vira palco de assinatura individual, instituições existentes passam a ser vistas como obstáculos: exigem tempo, consenso, registros e compromissos. Tudo isso contraria o objetivo central do trumpcentrismo: converter governança em paternidade simbólica. Fundar algo “novo” não é suprir a ausência de mecanismos, mas a ausência de crédito pessoal.

O fenômeno não é apenas diplomático; é também geoeconômico. A lógica de “renegociar tudo” por impulso central — por meio de tarifas, ameaças comerciais e barganhas bilaterais — corrói a confiança nas regras multilaterais e incentiva a formação de blocos e arranjos paralelos. A economia internacional, que depende de expectativa e previsibilidade, passa a operar sob o regime do anúncio: a estabilidade não decorre de tratados, mas da capacidade de um centro impor termos e proclamar “vitórias”.

Pode haver ganhos táticos de curto prazo, mas o custo estratégico é elevado. O mundo responde com diversificação forçada, rearmamento econômico, planos alternativos e institucionalidades paralelas. O que se apresenta como eficiência tende, na prática, a produzir fragmentação.

A consequência mais grave é a erosão da autoridade global. Se cada potência cria seu próprio “conselho”, “clube” ou “coalizão”, os conflitos passam a ter múltiplas mesas concorrentes, e os atores escolhem a arena que mais lhes convém. Esse fenômeno enfraquece padrões comuns e incentiva a política do espetáculo: quem detém mais holofotes passa a ditar os termos.

Em vez de reformar o que existe, o trumpcentrismo tende a gerar um mosaico de iniciativas de validade variável, dependentes do ciclo eleitoral do país que as patrocina. A regra torna-se negociável; a governança, temporária. Para países médios, esse cenário representa risco estrutural.

Historicamente, grandes ordens internacionais foram descritas como “pax” — não porque fossem pacíficas em sentido moral, mas porque concentravam poder suficiente para reduzir certos conflitos e impor algum grau de previsibilidade.

A Pax Romana garantiu estabilidade interna e rotas seguras sob hegemonia imperial, à custa da submissão das periferias. A Pax Britânica sustentou um período de relativa paz associado ao comércio global e à supremacia naval, embora marcada por relações coloniais assimétricas. Após 1945, a Pax Americana combinou poder militar, alianças estratégicas e instituições como a ONU e o sistema de Bretton Woods, criando um modelo no qual a previsibilidade foi, em parte, institucionalizada.

O trumpcentrismo parece aspirar a algo distinto dessas experiências históricas: uma espécie de “Pax Trumpiana”, não baseada em instituições que sobrevivem ao governante, mas na imagem do governante como instituição. Trata-se da paz como evento de marketing: anunciada, assinada, creditada e personalizada. A diferença é crucial: as “pax” clássicas eram duras, mas possuíam gramática imperial, sistêmica ou institucional. O trumpcentrismo tenta reduzir essa gramática a um nome próprio, tornando a ordem internacional mais volátil, pois o centro deixa de ser uma estrutura e passa a ser uma persona.

E o Brasil diante desse cenário?

Para o Brasil, o trumpcentrismo funciona como alerta. Quando a ordem internacional se torna personalista e transacional, o custo da autonomia aumenta. Uma resposta prudente exige a defesa ativa do multilateralismo — não por idealismo, mas como estratégia de gestão de risco; a diversificação de parceiros e rotas econômicas; o investimento consistente em soberania, incluindo defesa, capacidade cibernética e proteção de infraestruturas críticas; e uma diplomacia firme e seletiva: cooperação quando houver benefício concreto e resistência diante de tentativas de alinhamento automático.

O trumpcentrismo busca transformar a governança global em mercadoria, convertendo paz, estabilidade e segurança coletiva em produtos atribuíveis a um indivíduo. A história aponta o oposto: ordens duradouras são institucionais. Mesmo quando hegemonias impuseram estabilidade, ela se sustentou em arcabouços — força, incentivos, regras, alianças, moedas, tribunais e burocracias.

Quando a paz se torna propriedade de um indivíduo, ela deixa de ser bem público e passa a ser campanha. E campanhas, por definição, têm prazo de validade.

Dr. Marcos Eduardo Lelis

Mestre em Direito – Ciências Jurídico-Políticas pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (Portugal).

Jurídico | Confraria 01

Comentários (0)

Fale Conosco